Publicidade

Home >

Artigos >

O LIEVITO MADRE NAS MASSAS RICAS

O uso de lievito madre em massas ricas, como panetone e colomba, envolve desafios técnicos devido à presença de açúcar e gordura, que alteram o ambiente microbiológico. O estresse osmótico reorganiza a microbiota, favorecendo bactérias que produzem exopolissacarídeos (EPS), essenciais para maciez, elasticidade e conservação. Diferente do levain tradicional, o lievito madre exige manejo específico. Compreender esses processos permite maior controle sobre fermentação, textura e qualidade final das massas ricas
Autor
Claudia Rezende
4 de abril de 2026

O LIEVITO MADRE NAS MASSAS RICAS

Na Páscoa temos a tradicional Colomba Pascal, uma massa rica como o Panetone, na qual se deve usar um fermento natural, o chamado lievito madre, que precisa estar muito equilibrado para um bom resultado. 

 

Quando pensamos em fermentação natural, a primeira coisa que vem à cabeça é o pão: farinha, água, sal e tempo. Com um bom levain, esses ingredientes se transformam em um produto cheio de aroma, textura e complexidade. Mas quando esse mesmo fermento entra na produção de massas ricas, como brioche, viennoiseries, panetone ou a própria Colomba Pascal, tudo muda. 

O açúcar, a gordura e as gemas criam um ambiente muito diferente para o fermento natural. A fermentação continua sendo importante, mas passa a dividir espaço com outros fenômenos microbiológicos e físico-químicos que influenciam diretamente a textura e a conservação dessas massas. 

Vou tentar explicar esse processo de forma introdutória, a partir de estudos de diversos profissionais — entre eles Thomas Teffri-Chambelland, uma das principais referências que utilizo aqui — com o objetivo de despertar esse tema entre os padeiros interessados. 

 

Levain e lievito madre: o levain das massas ricas 

 

O levain não é apenas um fermento. Ele é um ecossistema microbiológico onde convivem principalmente dois grupos de microrganismos: as leveduras, responsáveis pela fermentação alcoólica e pela produção de gás, e as bactérias lácticas, que participam da construção de aroma, acidez, conservação, textura e outras características do pão. 

No caso do pão, a fermentação bacteriana contribui principalmente para o desenvolvimento de sabor e acidez. 

Embora ambos sejam fermentos naturais formados por leveduras e bactérias lácticas, o levain usado no pão e o lievito madre das massas ricas são cultivados de maneiras diferentes. 

O levain de pão costuma ser mais hidratado, favorecendo maior produção de ácidos e aromas típicos da fermentação natural. Já o lievito madre tradicional, usado em Panetone e Colomba, é mantido mais firme e refrescado com maior frequência, muitas vezes duas ou mais vezes ao dia. 

Esse tipo de condução cria um ambiente microbiológico distinto, selecionando microrganismos mais adaptados a condições difíceis, como aquelas encontradas em massas ricas em açúcar e gordura. 

 

Quando o açúcar entra, o sistema muda 

 

Nos pães feitos com levain, além das leveduras, uma bactéria costuma dominar o ambiente: Lactobacillus sanfranciscensis, associada à produção de ácido láctico e ao perfil aromático típico do pão de fermentação natural. Mas quando entramos no território das massas ricas, esse equilíbrio começa a mudar. 

 

Massas como Panetone e Colomba contêm quantidades muito maiores de açúcar do que qualquer pão. Esse açúcar cria um fenômeno conhecido como estresse osmótico, que em termos simples, reduz a quantidade de água disponível para os microrganismos. 

Nesse ambiente, muitas bactérias presentes no levain tradicional passam a se desenvolver com mais dificuldade, e a microbiota se reorganiza. Espécies que antes eram minoritárias podem ganhar espaço, especialmente aquelas mais adaptadas a esse novo contexto. 

Entre elas, destacam-se alguns gêneros como Weissella e Leuconostoc, que, em determinadas condições, são capazes de produzir compostos com papel importante na qualidade dessas massas. A fermentação continua acontecendo, mas sob outras regras. 

 

O papel dos exopolissacarídeos (EPS) 

 

Algumas bactérias lácticas, quando expostas a determinadas condições, entre elas a presença de sacarose, podem produzir substâncias chamadas exopolissacarídeos (EPS). 

Esses compostos são formados a partir da união de açúcares simples, gerando cadeias mais longas. Esse processo é diferente do que ocorre, por exemplo, na hidrólise do amido, em que moléculas maiores são quebradas. 

Entre os EPS, os dextranos têm especial interesse na produção de Panetone e Colomba. Eles podem contribuir para: 

  • maciez do miolo
  • elasticidade da estrutura
  • melhor retenção de umidade
  • maior conservação

Curiosamente, o mesmo açúcar que dificulta a atividade de muitos microrganismos é também o que permite que algumas bactérias produzam essas substâncias fundamentais para a textura do produto final. 

A partir disso, fica claro que a textura de uma massa rica fermentada naturalmente não depende apenas da fermentação. Ela depende também do metabolismo bacteriano e das substâncias produzidas ao longo do processo. 

Produzir um bom Panetone ou uma boa Colomba com fermentação natural não é apenas seguir uma receita. É conduzir um organismo vivo em um ambiente complexo, onde açúcar, gordura e tempo colocam o fermento sob pressão constante. 

Ao longo do tempo, cada padeiro aprende a observar o comportamento do seu fermento: a acidez, a velocidade de fermentação, os aromas, a elasticidade da massa. Esse conhecimento nasce da prática, mas se aprofunda quando entendemos os processos que estão acontecendo dentro da massa. 

E talvez seja justamente esse diálogo entre tradição, observação e ciência que torna o universo do lievito madre tão fascinante para quem se dedica à panificação. 

Sobre o autor:
Claudia Rezende
A história de Cláudia Rezende, fundadora da Zestzing Padaria Artesanal, é uma jornada de reinvenção e propósito. Após décadas no mercado de comunicação, ela descobriu na panificação artesanal uma nova vocação aos 55 anos. O aprendizado técnico em escolas renomadas e a pesquisa sobre fermentação natural transformaram o pão em uma expressão de ciência, método e identidade. Do forno doméstico ao negócio próprio, Cláudia construiu a Zestzing em São Paulo com o conceito de transparência na produção — fornos à vista, ambiente acolhedor e valorização da experiência sensorial. Seu estilo une rigor técnico à adaptação ao paladar brasileiro, resultando em pães de fermentação natural premiados e filas constantes. A trajetória também reflete o boom da panificação artesanal no Brasil, que vem redefinindo o gosto e as expectativas dos consumidores. Cláudia defende estudo, técnica e planejamento como fundamentos para quem quer empreender, reforçando que autenticidade e conhecimento são o verdadeiro diferencial. Hoje, a Zestzing é referência de qualidade e propósito na nova geração de padarias paulistanas.
Publique em suas redes sociais e marca a gente: #massamadreblog
Compartilhar
Por Claudia Rezende
Por Patricia Galasini
Por Massa Madre Blog
Por Pedro Frade

Publicidade

Headline

Never Miss A Story

Get our Weekly recap with the latest news, articles and resources.
Cookie policy
We use our own and third party cookies to allow us to understand how the site is used and to support our marketing campaigns.

Hot daily news right into your inbox.