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Fermentação no verão: como controlar a temperatura em janeiro na panificação

No verão, o controle da fermentação é um dos maiores desafios da panificação. Temperaturas elevadas aceleram a atividade da levedura, comprometendo estrutura, sabor e regularidade do pão. Para manter a qualidade, é essencial ajustar a temperatura da massa com água fria, reduzir fermento, observar o comportamento da massa, adaptar tempos e usar fermentação retardada. Em pães com massa madre, o cuidado deve ser redobrado para equilibrar fermentação, acidez e retenção de gases, garantindo pães estáveis e aromáticos mesmo no calor.
Autor
Matheus Pinheiro
20 de janeiro de 2026

Fermentação no verão: como controlar a temperatura em janeiro na panificação

A fermentação é o coração da panificação. É ela que transforma uma mistura simples de farinha, água e sal em pães com volume, textura e aroma característicos. No entanto, nos meses mais quentes, como janeiro, o calor deixa de ser apenas um fator ambiental e passa a interferir diretamente no resultado final do pão. Temperaturas elevadas aceleram a atividade da levedura, encurtando etapas importantes do processo e, muitas vezes, comprometendo o sabor, a estrutura e a regularidade. Enquanto no inverno o padeiro costuma lidar com massas lentas e pouco ativas, no verão o desafio se inverte: frear a fermentação e mantê-la dentro de um ritmo controlado. Na realidade, é comum acreditar que basta reduzir o fermento ou colocar a massa na geladeira para resolver o problema. Mas controlar a fermentação no verão exige mais do que ajustes pontuais: exige entender como a massa responde ao calor em cada etapa do processo.  

Por que a temperatura é tão importante na fermentação da massa  

Na panificação, a levedura, seja seca ou fresca, apresenta uma faixa ideal de atividade, geralmente entre 24 °C e 28 °C em fermentações diretas e mais rápidas. Dentro desse intervalo, a fermentação ocorre de forma equilibrada, permitindo o desenvolvimento adequado de gases, aromas e estrutura. Quando a temperatura ultrapassa essa faixa, a fermentação se acelera excessivamente. O resultado são massas que crescem rápido demais, mas perdem força, apresentam bolhas irregulares e podem colapsar durante o forneamento. Além disso, a fermentação acelerada tende a gerar sabores desequilibrados, excesso de acidez e miolos pesados. O controle da temperatura, portanto, não é apenas uma questão de tempo, mas de qualidade sensorial e estrutural do pão. No verão, o padeiro não precisa se preocupar em “acordar” a levedura, e sim em domar o processo, garantindo que a massa cresça de forma uniforme e previsível.  

Como controlar a fermentação da massa no verão  

1. Use água mais fria  

A água é o primeiro e um dos principais pontos de controle da temperatura da massa. Em dias quentes, o uso de água gelada ou resfriada ajuda a equilibrar a temperatura final da massa, retardando a atividade da levedura logo no início do processo.  

2. Ajuste a quantidade de fermento  

Com temperaturas elevadas, pequenas quantidades de fermento já são suficientes. Reduzir a dosagem evita fermentações explosivas e contribui para um crescimento mais regular e controlado da massa.  

3. Diminua o tempo de fermentação  

No verão, os tempos tradicionais de descanso nem sempre se aplicam. Mais do que seguir o relógio, é fundamental acompanhar o comportamento da massa. Volume, elasticidade e textura são indicadores mais confiáveis do que o tempo fechado em minutos.  

4. Utilize a fermentação retardada  

A fermentação sob refrigeração desacelera a atividade da levedura e permite maior controle do processo. Essa técnica é especialmente útil em pães de longa fermentação ou em produções realizadas em dias de calor intenso, favorecendo o desenvolvimento de sabor e estrutura sem perda de regularidade.  

5. Escolha ambientes frescos e sombreados  

Evite deixar a massa próxima ao forno, fogão ou sob incidência direta do sol. Bancadas mais frescas, locais ventilados e protegidos do calor excessivo ajudam a manter a temperatura da massa mais estável ao longo do processo.  

Massa madre no verão: atenção redobrada  

Quando se trabalha com massa madre, o controle da temperatura se torna ainda mais crítico. O calor acelera não apenas a fermentação, mas também a produção de ácidos, o que pode resultar em pães excessivamente ácidos e com estrutura comprometida. No verão, é comum observar massas com atividade intensa nas primeiras horas, seguidas de perda de força e dificuldade de retenção de gases. Ajustes no tempo de descanso, na hidratação e no uso da fermentação retardada são fundamentais para manter o equilíbrio entre fermentação, acidez e estrutura. Mais do que acelerar ou frear o processo, o desafio está em ler corretamente o comportamento da massa e adaptar a condução ao ambiente e à farinha utilizada.  

Dicas adicionais para o padeiro artesanal  

● Acompanhe o comportamento da massa: massas excessivamente pegajosas ou ressecadas indicam desequilíbrio no processo fermentativo.  

● Observe o alveolamento e a textura: a forma como a massa retém os gases antecipa o resultado do miolo após o forneamento.  

● Cada massa reage de forma diferente: tipo de farinha, hidratação e método de fermentação influenciam diretamente o comportamento da massa no calor.  

No verão, dificilmente uma fórmula funciona de forma fixa. A prática constante e a observação cuidadosa são essenciais para ajustes finos e consistentes. Fermentar massas em janeiro exige atenção, técnica e capacidade de adaptação. Ao ajustar água, fermento, tempo e ambiente, o padeiro transforma o calor de inimigo em aliado. O segredo está em compreender o processo, observar a massa e controlar a fermentação para obter pães equilibrados, aromáticos e estruturados, mesmo nos dias mais quentes do ano. 

Sobre o autor:
Matheus Pinheiro
Matheus Moura Pinheiro é técnico em panificação, há três anos na Lesaffre, com experiência na aplicação de ingredientes, massa madre viva e inativa, fermento biológico e otimização de processos produtivos. Atua ministrando treinamentos teóricos e práticos para indústrias, centrais de produção e distribuidores, garantindo padronização e qualidade nos produtos. Formado em Gastronomia pela Unicesumar, com especialização em panificação, morou por um ano na China, adquirindo experiência internacional na área, na qual atua há 11 anos. 
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