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DE PADEIRA PARA PADEIRA, UMA HOMENAGEM

Ao longo do tempo, o pão saiu do ambiente doméstico — historicamente sustentado por mulheres — e ganhou as ruas, a indústria e o prestígio econômico, deixando o reconhecimento feminino para trás. Ainda hoje, elas ocupam majoritariamente os bastidores, enquanto homens assumem o comando. O pão artesanal resgata sentido, humanidade e tempo como ingredientes essenciais. Este texto homenageia as mulheres padeiras que resistiram, abriram caminhos e hoje lideram, pesquisam e transformam a panificação com autoria e protagonismo.
Autor
Claudia Rezende
8 de março de 2026

DE PADEIRA PARA PADEIRA, UMA HOMENAGEM

Dia 8 de março é o Dia Internacional da Mulher e eu quero, como mulher e padeira, prestar uma homenagem às mulheres padeiras, essas guerreiras que escolheram trabalhar num ofício que, por muito tempo, foi tratado como espaço masculino. Eu escrevo com farinha nas mãos e com a memória que o corpo guarda: as madrugadas de trabalho, as queimaduras do forno, a massa que não espera, as dores do excesso de repetição, aquela repetição que não perdoa. Mas escrevo também com uma certeza simples: o pão é um dos alimentos mais antigos do mundo e, ainda assim, a história da panificação, como profissão, nem sempre foi justa com a mulher. Por muito tempo, quando o assunto era “quem faz pão”, o imaginário coletivo respondia com uma figura masculina, mesmo quando havia uma mulher trabalhando ao lado. E talvez essa seja uma das injustiças mais silenciosas do ofício: a mulher nunca deixou de fazer pão, na sua casa ou mesmo como artesã. A mulher só deixou de ser creditada por isso. Seguiu com a mão na massa, no cotidiano, no preparo, no sustento de casa ou no trabalho invisível. Quando eu penso em mulheres e pão, eu gosto de lembrar que essa história não é de agora, ela é muito antiga. Uma das imagens mais antigas que temos de uma mulher fazendo pão vem do Egito Antigo: uma pequena estatueta mostra uma mulher ajoelhada, concentrada, assando pães, diante do fogo. E ela não tem nome. Porque por séculos a história do pão foi assim: essencial, cotidiana, repetida e sem assinatura. Essa peça foi encontrada em Gizé, na tumba G 2415, e é datada do Antigo Império (5ª Dinastia, reinado de Niuserra), por volta de 2420– 2323 a.C. Uma mulher fazendo pão, sem nome. 

Crédito: Peter Der Manuelian (pmanuelian), via Sketchfab. 

Com o tempo, o pão mudou de lugar: saiu da casa, onde tantas mulheres produziam e foi para a rua, foi para a vitrine, feito por máquinas, em turnos de trabalho pesado. Virou profissão, virou economia, virou ponto comercial, virou indústria. E, nesse movimento, algo se repetiu como se fosse inevitável: quando a panificação ganhou peso e prestígio no mundo do negócio, o reconhecimento feminino ficou para trás. Quem vive o setor sabe como isso ainda acontece. Vemos mulheres concentradas no atendimento, na limpeza, na pia, no apoio, como auxiliares e vemos homens ocupando a chefia, os fornos, o comando de produção, a manutenção pesada. Como se estar nos bastidores fosse natural para nós. O pão artesanal me trouxe um novo significado na minha vida: para um mundo que me traz para o SIMPLES, mais consequente, mais humano, onde o tempo volta a ser ingrediente; onde a fermentação lenta nos puxa de volta para o básico; onde importam os sabores e os aromas; onde a matéria-prima importa e onde a mão de quem faz importa. Eu quero aqui homenagear as mulheres padeiras que abriram caminho antes de nós, muitas vezes sem aplauso. As que fizeram pão para sustentar suas vidas. As que trabalharam duro e foram chamadas de “ajudantes”. As que atravessaram ambientes fechados, violentos e debochados e, resistiram. E quero homenagear também as padeiras que me inspiraram (e ainda inspiram): Flavia Maculan, Karina Ruiz, Isa Tavares, Alethea — assim como tantas outras que hoje lideram padarias artesanais, criam métodos, formam equipes, estudam fermentação, farinha e tempo com profundidade. Mulheres que não pedem licença para existir no forno e que fazem questão de assinar o que fazem.  

Feliz Dia Internacional da Mulher Padeira.

Sobre o autor:
Claudia Rezende
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