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ALEX DUARTE RIBEIRO
KNOW HOW

Missão África: Pães para todos!

20 SETEMBRO,2017

 

Uma experiência vivida dentro de uma aldeia em Quelimane, ensinando jovens a fazer pães com fermento natural.

 

No dia 27 de julho, embarquei para maior aventura da minha vida! Essa experiência me fez viver emoções que, até então, eu desconhecia.

 

Em 2016, meu tio Leônidas Duarte foi para Quelimane, em Moçambique. Ele foi “encontrado” pelo Danilo, líder de uma comunidade chamada Bom Samaritano. Quando digo “encontrado”, é porque foi mesmo! Depois de centenas de e-mails enviados para a Europa e EUA com pedidos de ajuda, um destes e-mails chegou até o meu tio, que já trabalha há muitos anos com projetos sociais no Brasil e no Leste Europeu.

 

Nossa família acompanhou de perto essa viagem através das redes sociais, e resolvemos assumir um compromisso, no sustento de uma família com 12 crianças e uma viúva, a dona Cecília. De lá para cá, temos acompanhado de perto todas as dificuldades desta aldeia em Quelimane.

 

Este ano, me senti chamado a participar desta viagem, mas no início eu não sabia como ajudar. O que eu sei fazer é pão! E foi aí que nasceu em nossos corações o desejo de levar os pães para África! De ensinar jovens desta aldeia a arte de fazer pães com fermentação natural.

 

O Danilo - que é Moçambicano e nascido em Quelimane - viu uma grande oportunidade de não dependerem apenas de doações, mas de viverem do seu próprio trabalho, e porque não, viver de pão! Os desafios foram muitos, daria um livro! Além do alto custo da viagem (que ultrapassou 10 mil reais!), existia um desafio gigante, que é a falta de infraestrutura para se fazer pão.

 

Começamos uma campanha na família, com os amigos e nas redes sociais. Eu tinha o dinheiro para ir, para minha despesa, mas eu precisava de dinheiro para fazer acontecer lá! Conseguimos levantar um valor que seria usado para iniciar o projeto. Muitas pessoas do Instagram se mobilizaram para ajudar. Foi muito bacana!

 

Além da família e amigos, grandes nomes do meio da panificação também colaboraram. O Adriano Ribeiro na divulgação do projeto, Luiz Américo Camargo na doação de livros – “O Pão Nosso!”, e o grande Rafa, da The Slow Backery, que me proporcionou um dia maravilhoso dentro da Slow, como forma de me ajudar com o projeto. Ainda teve a Neide Rigo e Moema Machado, com suas inspirações!

 

Mas, as incertezas eram grandes. Será que vou encontrar uma boa farinha de trigo? Será que a água vai dar para fazer pão, alimentar o fermento? O fermento natural vai funcionar? Vai sobreviver? E o forno? Vamos conseguir construir?

 

Embarcamos com as malas cheias de material para panificação. Uniformes, toucas, aventais, camisas, panos para limpeza, espátulas, balanças, potes, caixas, bowls, etc. Duas malas repletas de material. Um pouquinho de roupa (risos) e muitas dúvidas!

 

Graças a Deus, os desafios foram sendo vencidos. O curso aconteceu! Encontramos uma boa farinha – de qualidade melhor do que a do Brasil! Mínimo de 10,3g de proteína a cada 100 gramas. O fermento se adaptou bem a água local, os jovens estavam focados e interessados em aprender. Conseguimos até montar uma grande mesa (com madeiras que foram compradas) em cima de grandes blocos de concreto. Forramos com um plástico e seguimos em frente!

 

O maior desafio, estava por vir - Assar os pães. Compramos alguns vasos de barro, fizemos buracos no chão, preenchemos de pedras e carvão, tipo Neide Rigo! Foi maravilhosa a experiência. Mas não daria para assar todas as massas de uma semana de curso, das 9hs até às 18hs. Eu não podia “perder tempo” assando todos os pães. Quanto mais massa produzida, mais prática, mais contato, mais experiência. Eu não ficaria por muito tempo com eles, então, o desejo era fazer o máximo de massa possível.

 

Mas, aconteceu algo durante o curso que mudaria a minha forma de pensar. Uma massa, usada para demonstrar autólise acabou ficando de lado no primeiro dia de curso. Percebi que um aluno, usando uma folha de bananeira, pegou aquela massa, com apenas farinha e água, e guardou para levar para sua casa. Alí eu percebi que teríamos que assar todas as massas produzidas. Eu estava lidando com algo que eu não conhecia: a fome!

 

Foi então que começamos a assar os pães estilo Moema Machado, assando sob as brasas do carvão. Ali, estávamos fazendo o pão caçador. Eles gostaram muito deste método, pois observavam a cada instante a mudança da massa de farinha, água e sal em pão. Pão de verdade!

 

Foram muitas as experiências! Ver crianças comendo os pães que estavam sendo assados, crianças de meses de vida, como a Antônia. Muitas pessoas foram alimentadas com os pães que fizemos. Aliás, todo pão na aldeia, desde o curso, está sendo produzido pelos meninos. Isso me deixa muito feliz! Foi fantástico! Como disse, daria para escrever um livro.

 

Dentre os meninos, cinco se destacaram, são eles: Arsênio e o Aider, líderes do grupo, a Felismina, meu xará Alex e o Isler, mestre da brasa!

 

Conseguimos comprar uma geladeira, material para panificação e duas pedras de granito, onde será montada a mesa para a sova. Compramos uma bicicleta para transportar a farinha, carvão e todo o material.

 

Agora você deve estar me perguntando: e o forno? Conseguimos também deixar o valor do forno - que só não foi construído nos dias que ficamos lá por falta de mão de obra qualificada. Aliás, o forno já está pronto! Foi um grande desafio tentar auxiliar a construção estando aqui do Brasil. Agradeço a Alice e o Marcelo, que foram indicados pelo Rafa da Slow, para nos orientar na construção. Mesmo distante, este casal não mediu esforços para ajudar.

 

Nosso próximo objetivo é conseguir um patrocínio mensal para arcar com o custo da farinha de trigo, sal e a lenha. Para que eles possam continuar treinando o que foi aprendido! Também queremos fazer a cobertura da padaria e, quem sabe, o piso!

 

Esta semana, em contato com o Danilo, perguntei sobre o Isler, o jovem do curso com talento para lidar com as brasas. Perguntei, pois saí de lá preocupado com ele. Percebi nele mais fragilidade, um olhar sofrido e triste. Foi quando soube que o Isler e sua família estava passando fome.

 

Os desafios ainda são enormes! Sim, eu sei. Tudo o que foi feito foi apenas o começo! Queremos muito mais. Queremos mudar a realidade e a perspectiva dos jovens desta aldeia.

 

Com esta viagem, entendi que nada acontece por acaso. Este amor que sinto pela panificação, pelos pães com fermentação natural, não brotou em meu coração à toa. Nasceu para um propósito, nasceu com um objetivo maior, objetivo esse de alimentar vidas em outro continente. De alimentar esperança de um dia melhor.

 

Agradeço o apoio que recebi de cada pessoa. Agradeço ao Danilo Montanha, por me receber em Quelimane, por me permitir ajudar. Está sendo um privilégio caminhar com vocês!

 

Obrigado a Massa Madre pelo convite de fazer parte deste time! Espero poder contribuir para que muitas pessoas encontrem o seu caminho na panificação, assim como eu encontrei.

 

Quanto ao Isler, consegui uma parceria para o seu sustento. Queremos agora fazer o mesmo com os demais meninos.

 

Um beijo no coração, boas fornadas e até a próxima!

 



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